Friday, January 04, 2008

Optimista...

São dez (da noite). É preciso ir comprar cigarros. A primeira sensação é de desconforto, já que lá fora está um frio de rachar.
Mas... tudo bem: agasalho-me, um cachecol e o sobretudo, e parto para esse breve percurso. Na verdade sabe-me bem esticar as pernas um pouco, sentir na cara o frio da noite, para cumprir aquilo que é já um hábito rotineiro e, afinal, bem vindo. Percorro as mesmas calçadas, dobro as mesmas esquinas e vou-me deixando embeber pelas luzes das montras, dos faróis de uns poucos de carros, ouço os meus passos isolados na rua, sabendo que, em minutos, vou franquear aquela porta e sentir o cheiro do café e o calor da conversa dos “habitués”.
Pelo caminho, apenas por um breve instante, assolam-me aquelas memórias da agitação que em Bruxelas, Colónia ou Berlim, se vive ainda à mesma hora. Reajo. Não... não vamos cair outra vez na mesma lamúria de sempre. Estamos em Lisboa, que raio!... e Lisboa é assim mesmo.
Levado pelo suave prazer da rotina dirijo-me à porta da pastelaria Sylvia, uma das poucas abertas na Avenida a esta hora. Ao empurrar a porta sinto o primeiro choque. O café está vazio. Própriamente vazio não, mas quase: atrás do balcão o “patrão”, absorvido, limpa o balcão; uma senhora pede uma informação e sai; as cadeiras empilhadas anunciam o fecho; e, pior, o cheiro do detergente substituiu o do café. Só a televisão cumpre os passos da rotina, cúmplice mas obediente, prestes a ser calada por um simples gesto do dono.
Peço os cigarros. A escolha de um chocolate justifica um pequeno prolongamento da visita. O patrão, solícito, corresponde comentando “o estado das coisas, que está tudo muito mal, que já hoje comprou o jornal mais caro, o preço do pão que também já subiu, etc”, tudo a propósito da carantonha de um senhor do governo que, por um instante, passou pelo ecrã da TV.
Ali fiquei por uns minutos, ouvindo-o, fazendo um ou outro comentário e, imbuido daquele espírito solidário-optimista-mas-não-conformista que nos fortalece a alma e o coração, fui dizendo “que sim senhor, que é tudo verdade, mas que estamos no início do ano e que, se calhar, ainda poderemos assistir a algumas melhorias”. Enfim, aquelas observações que, por cortesia, aligeiram o peso das queixas mas também servem e restauram o espírito optimista e a alegria de viver.
Durante a curta conversa fui abrindo o maço de cigarros, retirei um cigarro que, apagado, mantive entre os dedos enquanto conversávamos, até que o patrão me recordou que ”agora, aqui já não se pode fumar”... Segundo choque! Mas para este,na verdade, eu já estava preparado. Pois não se tem falado noutra coisa!
O terceiro choque, esse sim, o mais contundente, foi quando dei por mim já NA RUA, desolado, a acender o cigarro após uma rápida saudação ao “patrão”, e com uma frustrante sensação de animal acossado.
Que raio! É que, afinal, estamos em Lisboa. Em Lisboa de Portugal.